Terceiro e quarto dias

De Orage

Acordamos bem cedo e bem motivados. O Sol estava a três horas de nascer. Sob a luz de uma lanterna, fritamos três ovos, e os regamos com azeite. Tomamos leite, e outras coisas. Não me lembro de tudo. Certamente muitas coisas serão perdidas nessa narração. Estou me esforçando para me lembrar dos detalhes. Mas algumas coisas marcantes apagam outras menores, que vão ficando para traz. Até aqui, foram dois dias e duas noites muito intensos. Apesar do progresso pequeno, estávamos dispostos a nos dedicar ao máximo possível naquela manhã. No escuro, não vimos como estava o céu. Não víamos estrelas, mas não sabíamos se o que as cobria eram nuvens altas ou neblina.
Oito horas, supomos que haveria luz nos próximos minutos. Nessa época, o Sol nasce às 8h40. Sabemos que o céu começa a clarear uns 20 ou 30 minutos antes disso. Saímos do pasto com o cuidado de deixar a corrente do portão como a encontramos. Nunca mais veríamos nosso anfitrião, mas isso não amolece nossa gratidão.
Já na estrada, prontos, mas nada de luz. Não podíamos seguir viagem no escuro. As lanternas das bicicletas não são fortes o bastante para nos deixar seguros.
Diante de nós, vimos os faróis de um carro se acenderem. Coisa incomum. As pessoas acordam tarde no inverno. Mesmo as que não estão de férias. Todos os sistemas e horários parecem concebidos para amenizar os dias frios e tristes de apenas oito horas. Fui andando até lá com minha garrafinha d'água. Não sabíamos quantos quilômetros ainda teríamos que percorrer antes de encontrar um casa acordada, e nosso café da manhã tinha consumido toda nossa água. Além disso, ele tinha sido bastante rico em lipídios, que exigem mais água para serem digeridos do que açúcares.
Dentro do carro, encontrei um casal desconfiado e curioso. Perguntaram de onde vínhamos, para onde íamos, e não recusaram um pouco da água que tinham. Nos desejaram "boa estrada" e seguiram. Nós continuamos a esperar a luz, que chegou leitosa, com preguiça, anunciando aos poucos a vasta quantidade de umidade que flutuava sobre nós. Neblina, nublado, água gelada flutuando, congelando o rosto e os pés, até que o suor do esforço físico foi vencendo e aquecendo o corpo.
Até o momento, tinha sido a manhã mais produtiva que tivemos: 50 quilômetros até às 13h00. Parecia, enfim, que os 100 quilômetros por dia eram mesmo possíveis. Só que o terreno era plano, o humor era firme. O cansaço chegaria logo, assim como as montanhas, e o Sol se põe às 4h56. Os dados ainda estavam agarrados aos meus pensamentos, como a bagagem às minhas costas, me puxando para traz, para baixo, para longe, seja para antes, para casa, seja para depois, para a Suíça, intocada.
Chegamos até Saint-Yan. Só que Saint-Yan não estava no nosso caminho. Uma estradinha não sinalizada e perdida, e alguns quilômetros a mais no percurso. Tomamos a estrada que liga Saint-Yan à Poisson, e nos dissemos: "vamos almoçar em Poisson!" Mas não foi como quem traça um projeto que dissemos isso. Eu guardava ainda a estranha raiva de si mesmo de quando se comete um erro tolo. Parecia que Poisson era, finalmente, o destino final.
Quando chegamos lá, comemoramos. O lugar que escolhemos para cozinhar se mostrou pouco conveniente; na beira da estrada, na entrada do vilarejo. Os carros passavam jogando vento, poeira e olhares curiosos sobre nós. Cozinhamos uma massa volumosa e absolutamente necessária. Nossos corpos pediam nutrientes com avidez rara. Mastigar mal, engolir muito, o corpo sentado sem esmero na calçada, as costas dobradas, o pote de plástico se esvazinhando, o suor esfriando, os músculos se movendo sozinhos em espasmos eventuais, curtos, como se delirassem num sono profundo.

De Orage

Depois de mais de uma hora de densa apatia e siesta, empacotamos as coisas e tomamos a estrada para Charolles. O pedal da N1 voltou a travar, mas dessa vez eu sabia mais ou menos o que deveria ser feito; apertar a peça cilíndrica para que ela entre novamente na estrutura da bicicleta. Eu desconfiava que algo mais grave estava para acontecer com ela.
Mais alguns quilômetros, e o pedal travou mais uma vez. Tive a impressão de que dessa vez nós tínhamos rodado menos até o defeito se manifestar. A sensação de estar chegando perto de um fracasso aumentou quando eu tentei rodar a peça e ela simplesmente não se mexeu. Abordamos um fazendeiro num vilarejo cujo nome não me lembro, e pedimos água e, talvez, uma ferramenta. Mas que ferramenta? Eu nem sabia que ferramenta. Mostrei o problema, ele ouviu, olhou para o pedal, saiu sem dizer nada, em direção a um balcão. Voltou com um alicate regulável numa mão e uma lata de sprei na outra, e perguntou sorrindo:
- E essa panela aí?
Cecília riu e disse que era nela que cozinhávamos tudo, da entrada à sobremesa. Ele voltou a atenção para o defeito da N1, borrifou um lubrificante antioxidante na peça, e se pôs a apertá-la. Depois, borrifou ainda na corrente, na catraca, disse que eu deveria levá-la para um especialista o mais rápido possível e desejou boa viagem. Sempre sorrindo.
Seguimos, e vencemos um bom pedaço do caminho para Charolles antes de precisar apertar mais uma vez o pedal. Lubrificado, ele se deixou mexer. Mas eu sabia, com mais certeza, que aquilo era grave, e que de uma hora para outra estaríamos parados, empurrando a N1 a 6 k/h, se não encontrássemos um mecânico. Quando chegamos em Charolles, já fazia noite, e estávamos tão cansados que decidimos acordar tarde no dia seguinte, ficar por lá até que o comércio abrisse, procurar onde concertar a bicicleta sem pressa, descansar. Só que os pensamentos sobre as horas de descanso foram interrompidos por um dos mais curiosos episódios da viagem.
Atravessamos a cidade, tudo fechado; saímos por estrada qualquer, sem refletir sobre o caminho, já que no dia seguinte teríamos que voltar para reparar a N1, e procuramos um lugar para ficar. Não imaginávamos que aquela cidade nos ofereceria a mais fria recepção que já tínhamos experimentado.

De Orage

Saindo da cidade, encontramos mais uma casa ao lado de um pasto. Como na véspera a situação era parecida, estávamos confiantes. Tocamos a campanhia, e uma figura coberta de roupas de frio apareceu por uma porta inesperada, creio que a porta da garagem.
- Boa noite, senhora... senhor... Nós estamos viajando, a senhora poderia... o senhor...
Quando ela falou alguma coisa, já não lembro o que, eu percebi, finalmente, que se tratava de uma senhora. Mas já era tarde; ela parecia contrariada e fechada à conversa. Lógico.
Ainda assim, perguntei se poderíamos montar a barraca em algum lugar de sua propriedade, só para passar a noite, se ela não se importasse.
- Não me importo, não, mas isso me parece muito desconfortável; é muito úmido...
- Estamos bem equipados, senhora; não é a primeira vez que tentamos.
- Bom, tudo bem, mas talvez fosse melhor perguntar no vizinho de traz; ele tem mais espaço que eu...
Foi aí que percebemos que o vasto pasto ao lado não era a mesma propriedade que abordamos. A partir da sugestão dela, supomos que o pasto era do referido vizinho, e fomos bater na casa dele.
Depois que a senhora fechou a porta sobre si, Cecília riu de mim.
- Senhora... senhor... senhora...
Eu ri também, mas sobretudo da figura assexuada que não entendia como passaríamos uma noite de inverno numa barraca.
Tocamos na outra casa, e fomos atendidos por uma senhora. Certamente era uma senhora; percebemos imediatamente. Ela foi simpática. Não conversamos muito, mas ela disse que poderíamos ficar a vontade e nos instalar onde quiséssemos. Perguntamos onde ficava o acesso ao pasto, e descobrimos que nos enganamos de novo.
- Ah, não... O terreno aí ao lado não é nosso, não... Mas o quintal é grande; é só seguir até os fundos da casa.
Seguimos até o fundo e entendemos, finalmente, as proporções do terreno. Era grande, mas nada rural. Um quintal gramado, com três árvores, uma espécie de garagem, cheia de coisas que se usa ao longo das quatro estações, uma cerca viva em volta. Encostamos as bicicletas numa das árvores, e nos instalamos no quintal de alguém. Nada do que tínhamos planejado.
Antes do jantar, recebemos visitas. Dois homens com lanternas. O mais velho tinha a palavra.
- Minha esposa disse que permitiu que vocês dormissem aqui. Mas eu não permito. Eu não gosto da idéia de abrigar gente que eu não conheço. Você pode apresentar um documento de identidade?
Um frio na espinha superou de longe o que eu sentia na pele. Comecei a advogar pela nossa boa índole.
- Claro. O senhor não precisa se preocupar - Cecília saía da barraca - essa é minha esposa. Eu me chamo Bernardo de Sousa. Nós somos estudantes universitários em Clermont-Ferrant, e estamos de férias. Estamos a caminho da Suíça, onde somos esperados por amigos muito queridos.
Diante do pedido dos documentos, eu tinha entendido a grave preocupação que se passava pela cabeça daquele senhor. Ele tinha acabado de chegar em casa e descobrir que sua esposa estava abrigando no quintal dois forasteiros. Ele deve ter perguntado como éramos, se éramos ciganos, mendigos, e ela não soube responder. Sua família estava reunida para as festas de fim de ano. O homem que o acompanhava era seu filho, casado, cujos filhos esperavam lá dentro. Ele deve ter discutido severamente com a esposa sobre sua benevolência.
Cecília trouxe os passaportes, e, a partir de então, seu filho deixou o ar de guarda-costas para assumir um incômodo, talvez alguma vergonha, certamente pressa. Ele dizia "tá bom, vamos lá...", num tom de quem se enganara forte. Mas o senhor já tinha pedido os documentos, já os tinha lido, e agora os levava para dentro para fotocopiar. Isso mesmo. Ele foi fazer cópias dos nossos passaportes.
Entramos na barraca um pouco assustados. Conversamos sobre aquela antipatia. Concordamos que era aceitável, que não tínhamos nos apresentado direito diante da esposa dele. Ouvimos os passos dele voltando com os documentos. Eu saí, e o recebi com um sorriso. Dessa vez ele vinha sozinho, e não apontou a lanterna para meu rosto. Entregou os documentos dizendo que o Natal deles era naquela noite, porque o filho ia viajar a trabalho depois. Disse que não estava fazendo aquilo só para nos perturbar, e que hoje em dia é preciso desconfiar de todo mundo. Ele não chegou a pedir desculpas, mas tinha o tom bastante diferente. Perguntou se não precisávamos de mais nada, se tínhamos o que comer, se queríamos que ele esticassa um fio elétrico para nos dar mais luz... "Um fio elétrico?", pensei.
- Não, obrigado. É muito gentil, mas temos tudo que precisamos.
Assim, fomos dormir em paz.
De Orage

No dia seguinte, acordamos tarde, tomamos um bom café da manhã, desmontamos a barraca sem pressa, e fomos saindo devagar. Quando passávamos em frente a casa, nos dissemos que poderíamos deixar um bilhete agradecendo. Não, não. Não precisa.
Dentro da pequena cidade, seguindo as instruções de alguém, encontramos uma loja de motos, onde Cecília foi barrada por que seus tênis estavam sujos. Eu já tinha entrado e perguntado a moça se eles também trabalhavam com bicicletas. Saí sem muita esperança de resolver definitivamente o problema. Meus tênis também estavam sujos. Acho que foi isso que chamou o dono da loja para fora, impedindo Cecília de entrar também. Finalmente, eles nos emprestaram uma chave de boca, com a qual eu não poderia fazer muita coisa. Acabei resolvendo um outro problema, bem menos grave, da N1. Ela tinha pedais de corrida, que até então estavam me incomodando, porque não vão muito bem com meus tênis, que não foram feitos para bicicleta. Eu tinha comprado pedais ordinários na véspera da partida, ainda em Clermont-Ferrant, mas não tinha trocado ainda por falta de uma ferramenta apropriada. Aproveitei a oferta de uma ferramenta para trocar os pedais, e continuamos a viagem sob a sombra do insistente problema mecânico.
Apesar da noite bem dormida, estávamos nos sentindo ainda muito cansados, a o relevo parecia estar contra nós. Pedalamos devagar e com muitas pausas. Todas as subidas pareciam enormes, e as decidas passavam muito rápido.
Passamos por muitas cidades muito pequenas, onde as pessoas pareciam ter medo de gente. Numa delas, encontramos uma velhinha caduca, que nos olhava de boca aberta, através de sua janela, como se fôssemos alienígenas. Tentamos chamá-la para pedir água, mas ela só ficava olhando, e não respondia. Almoçamos na beira de um riachinho, onde lavamos os talheres, a panela, as duas xícaras, os potes de plástico, a sola dos tênis, tudo, pela primeira vez com água corrente. Ainda sem sabão.

De Orage

De Orage

Na ânsia de avançar, esperamos demais para comer. Creio que a principal causa da improdutividade do dia foi isso. Não sentíamos fome, mas também não tínhamos energia para ir muito longe. Passamos o dia com lanches insólitos, e esse almoço a beira do riacho foi feito depois das 4 da tarde. O Sol já estava baixo. Quando terminamos de comer, atravessamos a ponte em direção ao que supomos que seria uma fazenda humilde, onde poderíamos passar a noite, mas só encontramos galpões e tratores. Até que achamos um grupo de 4 ou 5 pessoas conversando perto de um carro, em frente a um desses galpões. Eles pareciam à trabalho. Perguntei, como de costume, se eles consentiam em nos emprestar um pedaço de chão por uma noite, e ouvi uma resposta muito estranha.
- Vá pedir ao prefeito.
- Ao prefeito?
- Isso. Você continua nessa estradinha, até chegar à vila, onde tem a prefeitura.
Meu humor não estava num dos seus melhores dias, e ainda uma dessas... Agradeci e tomei a direção contrária ao tal prefeito. Quando começamos a pedalar, ele gritou:
- É por ali!
- É, eu sei. Muito obrigado - respondi sem olhar. O prefeito? O que é que o prefeito tem a ver com isso?
Voltamos para a estrada principal a andamos os últimos minutos de luz, até uma floresta muito convidativa para mim, e muito assustadora para Cecília. Ela foi corajosa. Entramos empurrando as bicicletas por uns 100 metros, e montamos a barraca sem pedir nada a ninguém. Eu senti uma estranha satisfação com aquilo. Tínhamos passado a noite anterior num quintal, e agora eu me sentia na liberdade de estar cercado por árvores, longe do alcance da visão de quem quer que seja, onde a chance de sermos abordados por alguém era muito remota.

De Orage

Na oração, antes do jantar, pedimos perdão pelo mal-humor do dia. Depois de comer, eu abri meu saco-de-dormir (apenas o meu) e dormi sem refletir. Aqui está o que minha esposa escreveu enquanto eu dormia:
« Estamos agora numa floresta. Que selvagem! rs...
« Pedro dorme pesado, está exausto. Meu herói, o Super-Cabelinho (tinha sempre um pouco de cabelo saindo pelos cantos do gorro), é de carne e osso.
« Somos um casal cheio de planos. Já éramos indivíduos cheios de planos antes de nos conhecermos. Juntos, os planos se foram somando, se cruzando, sendo redesenhados, e se multiplicando. Somos uma verdadeira fábrica de fazer planos. Dos grandes, bonitos, de chamar atenção. Planejamos mestrado e doutorado no Canadá; sete filhos; cachorros; várias viagens; várias mudanças; para a China, para a Itália, para a Romênia... E há uns dois meses planejávamos essa viagem para a Suíça. Planejar é bom, mas é preciso efetuar o projeto. Muitas vezes, as coisas acontecem como planejado, como fazer um ano da faculdade na França. Outras vezes... não contamos com alguma coisa, ou não analisamos direito a situação. Ou ambos. Essa viagem deveria durar 4 dias. Estamos no fim do 4° dia, e na metade do caminho. É preciso saber lidar com mudanças de plano, após alguma frustração. Estamos aprendendo. »
***
Essa foi a maior lição que a tempestade (Orage) nos deu; nem sempre seremos capazes de ir até o fim. Nossos sonhos não tem limites, mas nossos corpos sim. Às vezes, é preciso saber desistir.

De Orage

Se gostou desse relato, não deixe de ler o dos outros dias! E na ordem ;)

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